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29 de Fevereiro de 2020

E quando o fanatismo sobressai à razão?

“A ciência sem fé é loucura, E a fé sem ciência é fanatismo.” (Martinho Lutero)

Adilson Gomes, Advogado
Publicado por Adilson Gomes
há 4 anos

A religiosidade é uma das mais antigas manifestações do homem. Sempre, de alguma forma, ele tem procurado unir-se aos preceitos religiosos com a razão, porém, em alguns momentos, como acontece também em outras áreas, indica distúrbios e oferece perigo não só para uma pessoa ou um religioso, mas para como toda uma sociedade.

Foi o que aconteceu com um homem portador do vírus da AIDS, iludido com a cura médica/espiritual, abandonado o tratamento médico em nome da cura pela fé.

Conforme os autos do processo, o soropositivo ainda teria sido levado a se relacionar sexualmente com a sua sem uso de preservativo ou quaisquer tipo de proteção, como prova de fé, acabando por transmitir-lhe o vírus, e a ceder bens materiais para a igreja, tudo em nome da fé!

É um absurdo que as religiões possam ter tomado tamanha influencia não só na cabeça de um ser, mas em todo o Brasil. A força religiosa exerce sobre o comportamento e pensamento de seus rebanhos, e principalmente, ao constatar no perigo em que se tornam quando a religiosidade se torna um buraco vazio que a pessoa tem dentro de si, repleto apena de insegurança e medo, e que ele procura preencher de uma maneira desequilibrada.

Quando suas crenças passam a ser tão importantes para a sua sobrevivência quanto a sua razão, uma vez que são os pilares que sustentam, que ele tem com vigor e paixão, qualquer questionamento que ameace de destruição.

A pessoa não quer pensar, nem quer ser induzida a fazê-lo. Ela crê e defende sua crença como um leão e acredita e despreza aqueles que dela não compartilham.

O fanatismo, além de ser um processo de alienação, na importância social da religião, na sua capacidade de aglutinação e como, na história multe milenar do homem, tem servido de conforto e esperança nos momentos de vulnerabilidade dos que nela têm fé.

A capacidade de se aproveitar da extrema fragilidade e vulnerabilidade em que se encontrava o fiel, para não só obter dele vantagens materiais, mas também abusar da confiança e da esperança em que ele tivera, em tal estado, depositada nas mensagens de fé avassaladoras de sua vida.

É de saber que, qualquer pessoa em um estado de fragilidade mental ou psicológica, tem a facilidade de ser levado pela conversa de quaisquer maus-caracteres que lhes traz uma mensagem de esperança, mas devemos nos ater à realidade e colocarmos a responsabilidade dos atos irresponsáveis dessas pessoas.

Antes que digam que foi uma decisão unânime do cidadão em deixar o tratamento médico (alguns diriam: “Ele deixou por que quis!”), os laudos médicos e depoimentos do psicólogo são provas nos autos de que o abandono do tratamento pelo paciente se deu a partir do inicio das visitas aos cultos religiosos. Esse fato, somado a outras provas, como testemunhas e matérias jornalísticas pregando a cura da AIDS pela Fé, convenceram o magistrado sobre a atuação decisiva da igreja (em que me atenho a não escrever o nome) no sentido de direcionar a escolha.

A religiosidade e a fé é algo muito bom quando nos levam ao equilíbrio e ao desenvolvimento racional, a abertura para o outro, a complacência, o amor, o acolhimento, a generosidade, a compaixão e o respeito, sendo o fanatismo uma arma incondicional, exaltada e completamente isenta de espírito critico.

Segundo as palavras do relator: “o fanatismo reside no fato de ter se aproveitado da extrema fragilidade e vulnerabilidade em que se encontrava o autor, para não só obter dele vantagens materiais, mas também abusar da confiança que ele, em tal estado, depositava nas mensagens da Fé”

Além do mais, continua sabiamente o relator: “Pessoa ou instituição que tem conhecimento de sua influencia na vida de pessoas que a tem em alta consideração, deve sopesar com extrema cautela as orientações que passa aqueles que provavelmente os seguirão”

Devemos estar alertas, policiando nossas emoções, para que não deixemos nos envolver por sentimentos de intolerância e não coloquemos as nossas paixões no lugar das razões. Não podemos e não devemos ficar tão obcecados pelas “nossas verdades”, que não damos ouvidos as nossas razões. Isso é o perigo de o fanatismo sobressair à razão!

18 Comentários

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isso é charlatanismo, nosso CP já pune, mas, alguns membros do MP (todos) fecham os olhos para esse tipo de pratica, Art 282, 283... do CP, mas ninguém, ninguém mesmo reage a esses lixos que estão dominando a sociedade e manipulando as massas sem estudo (alguns seres até formados caem nas garras desses lixos), sem cultura e desesperados, lastimável o rumo que meu país está tomando. continuar lendo

Concordo, com algumas ressalvas, respeitosamente.

Não são "as religiões" que tomaram esse espaço, mas sim as vertentes cristãs neopentecostais, que buscam a todo custo, aparentemente, trazer um Estado Religioso de volta ao país.

O problema não é taxar ou deixar de taxar os templos. Muitos são contra sem sequer imaginar a causa dessa imunidade. Antigamente, era comum instituir impostos dracônicos sobre templos religiosos que fossem contrários a elite do país. Essa imunidade é justamente para proteger isso, pois, do contrário, a "bancada evangélica" já teria proposto um tributo massacrante contra as religiões de matriz africana somente para fechar nossos terreiros.

Sobre o resto, os noticiários são abundantes de notícias da IURD e seus processos enfrentados sob denúncias onde ex fiéis se sentem enganados por terem dado tudo o que tinham. Sem contar iniciativas municipais e estaduais de proselismo religioso nas escolas, Concordata Brasil-Vaticano, etc. Meu comentário seria imenso se continuasse... Tanto que meu TCC foi justamente sobre isso.

Reflitam antes de falar, pois o mundo está cheio de pessoas com certeza absoluta sobre temas que não entendem absolutamente nada. continuar lendo

Franklin, respeitosamente também concordo com vc. Seu ponto de vista é correto, e lembrando o que disse Marx: "A religião é o ópio do povo". Em menor ou maior grau toda igreja explora a fé em função do pagamento de dízimo e as neopentecostais vão mais além, avançam sobre o patrimônio de muitos fiéis , tirando-lhes ate o essencial para sua sobrevivência. O judiciário tem mais é que punir quem assim agir contra a boa fé e ou a fé religiosa. Deveria até dar cadeia e penas mais duras. continuar lendo

Muitas pessoas procuram uma igreja somente quando a "vaca foi para o brejo", "quando não há mais jeito", poucas pessoas entendem realmente o objetivo de se servir a Deus, ser crente é meramente crer em alguma coisa, mas a maioria não sabe realmente o objetivo de frequentar uma igreja uma religião, uns buscam a cura para uma doença, a melhora financeira, um casamento, o dia em que as pessoas realmente aprenderem o objetivo de "ser crente" dificilmente serão enganadas! continuar lendo

Nesse dia não serão mais crentes nem religiosos, o que seria ótimo. continuar lendo

Comentar sobre religião e política é sempre um vespeiro. Tenho e mantenho minha fé, que não tem nada de cega, mas depois de frequentar igrejas (católica e evangélica) por mais de dois terços da minha vida, depois de muito refletir, acabei concluindo que não dá. Nas igrejas atualmente existe quase que só vaidade humana e nada de divino. As igrejas estão preocupadas é com dinheiro, com quem as pessoas estão transando, etc., explorando a miséria humana através da fé. Tenho certeza de que não era nada disso que Deus estava pensando. Dias desses estava zapeando na tv e cai por acaso em um dos muitos canais evangélicos que existem. Nele, um pregador fazia uma campanha para arrecadar dinheiro para construir um templo novo. Quando a câmera focalizava a platéia, era o retrato da pobreza e do desespero humano. Quando focalizava o pregador eu não pude deixar de notar o conjunto de anel e relógio que ele usava. Devia valer uns R$ 100.000,00 por baixo, só no olhômetro. Quando chegar o dia do Julgamento Final, eu queria estar perto para ouvir a conversa dos dois. continuar lendo